A novela "Roque Santeiro" foi a escolhida pela Globo para substituir "Além do Tempo" no "Edição Especial" a partir de 4 de outubro. De autoria de Dias Gomes (1922-1998) e estrelada por José Wilker (1944-2014), no papel principal, Regina Duarte, Lima Duarte e grande elenco, a trama exibida entre 1985 e 1986 já foi reprisada no canal de 1991 a 1992 e de 200 a 2001.
Uma das tramas de maior audiência da história da TV, "Roque Santeiro" é ambientada na fictícia Asa Branca, que gira sua economia através dos romeiros que visitam a cidade para pedirem milagres a Roque. O fabricante de santos foi dado como morto em uma invasão e, supostamente, tentou defender o vilarejo. Mas quase 20 anos depois do "assassinato", Roque surge vivo, desconhecendo que se tornou um mártir e milagreiro.
Logo o filho do Beato Salu (Nelson Dantas, 1927-2006) e irmão de João Ligeiro (Maurício Mattar) se apaixona por Porcina (Regina Duarte), sua suposta viúva. Na realidade, Sinhozinho Malta (Lima Duarte) armou tal história para justificar a presença da mulher, com quem mantém uma relação. Além disso, a volta de Roque põe em cheque a economia local e afeta também a questão da fé e da romaria, atingindo a igreja do padre Hipólito (Paulo Gracindo, 1911-1995).
Como muitos sabem, a estreia da aguardada novela se deu 10 anos após ter sido vítima de censura durante o Regime Militar (1968-1985) e no dia da estreia, em 26 de agosto de 1975. Mas por que houve o veto à exibição de "Roque Santeiro"? O Purepeople recorda.
Na época, uma nota da Direção-Geral do Departamento de Polícia Federal indicou que "Roque" trazia "ofensa à moral, à ordem e aos bons costumes bem como achincalhe à Igreja" e, por isso, a Divisão de Censura vetou a Globo de exibir a novela, que teria em seu elenco Lima Duarte (já como Sinhozinho), Betty Faria (Porcina) e Francisco Cuoco (Roque), além de Dennis Carvalho (ator e diretor morto em fevereiro último).
Segundo o "Jornal do Brasil" da época, a Divisão de Censura havia alertado à Globo, em maio, que "a sinopse da novela não oferecia condições para um exame em profundidade". Por isso, pediu que os textos dos capítulos fossem entregue em grupos, de 24 a 38 números, antes deles serem gravados, para que assim fosse feita a análise.
No mês anterior à data agendada para a estreia, 4 de julho, a Globo foi informada que os primeiros 20 capítulos haviam sido liberados para irem ao ar depois das 20h. "Permanecia a exigência da remessa antecipada dos capítulos subseqüentes, posto que, ocorrendo maiores implicações de ordem moral ou social, poderiam ser vetados os outros capítulos ou mudado o horário da novela", advertiu o órgão.
O cenário mudou pouco mais de um mês depois, 20 de agosto. "O exame das gravações permitiu uma melhor avaliação da novela, levando-a a reconhecer que havia aspectos intoleráveis para a faixa das 20h, donde decidir-se classificá-la para maiores de 16 anos, liberando-a para após as 22h, sujeita ainda a novela a vários cortes com o fim de suprimir cenas e situações inconvenientes", disse a nota.
"Acrescente-se que o parecer dos censores que examinaram a novela assinala, dentre outros pontos negativos, que a mesma contém: 'ofensa à moral, à ordem pública e aos bons costumes, bem como achincalhe à Igreja'. Acentue-se, finalmente, que, nos contatos pessoais havidos entre a Censura e elementos credenciados da direção da Rede Globo de Televisão, em Brasília, desde o início do exame do problema, inúmeras advertências e apelos foram formulados, com o propósito de evitar a exibição da novela Roque Santeiro, sobretudo no horário das 20h", concluiu o parecer.